Com a aproximação da inauguração do Centro Cultural parece premente que se comece a delinear o cartaz cultural, em especial cinematográfico, desse futuro colosso da divulgação artística Sardoalense. Aproveitando este ensejo, Sardoal Virtual deixa aqui algumas sugestões de obras marcantes da cinematografia “Lagarta”. À atenção dos programadores...
“Beleza Sardoalense” – Fresco paisagístico filmado na melhor tradição de Manuel de Oliveira, onde a atenção do espectador é presa em grandes planos de paisagens sardoalenses. Abertura épica em que 15 minutos de pequenos pormenores do Adro da Igreja Matriz revelam os mais diversos comportamentos do Lagarto contemporâneo. Não passou despercebida uma “mijinha” nas escadas junto à Casa do Adro, um inocente casal de namorados a contemplar as vistas, e um grupo de rapaziada, bem no cantinho, a exalar fumos de legalidade algo duvidosa...
“Muuuuuuutrix” – Na calada da noite estranhas coisas acontecem no Sardoal. Relato introspectivo de um esposo traído pela confiança no matrimónio. O testemunho de como os que mais falam acabam sempre por ser os mais “enfeitados”.
“Autoradiospotting” – Sardoal, início do século XXI. Um grupo de rapazes sem perspectivas de vida passam os dias avistando auto-rádios nos parques de estacionamento da Vila. O coleccionismo virtual passa rapidamente a vício, e o que começou como uma brincadeira “inocente” rapidamente passa a gatunagem. Desfecho imprevisível.
“MIY – Men in Yellow” – Resenha biográfica de onze rapazes vestidos de amarelo que domingo após domingo correm atrás de uma bola. Sangue, suor e arranhões na luta por um lugar numa divisão superior. A narração, a cargo de alguns espectadores das disputas futebolísticas, imbui a obra num vernáculo que contrabalança a inocência pela conquista do título.
“O Menos Mau, o Pior que Este e o Ruim como as Cobras” – Western jocoso em que três homens buscam um “tesouro” que, aparentemente, lhes dará a notoriedade que doutra forma nunca conseguirão obter. As constantes mudanças de facção de alguns protagonistas lançam a confusão no espectador, apesar de gerarem diálogos de uma comicidade merecedora de uma antologia. Não fosse o final mais que previsível estaríamos perante um épico.
“Encontros imediatos no Chafariz” – Obra cinematográfica em jeito de “apanhados” que nos brinda com um “mosaico” de sucessivos veículos com vidros embaciados debaixo do plátano do Chafariz a altas horas da noite. No final da sessão, alguns espectadores não deixarão de soltar um risinho nervoso. Felizmente as matrículas foram dissimuladas...
“Danças com Lagartos” - Retrato de época em que um pézinho de dança no “Dancing” era um luxo e uma boa forma de engate. A transição entre épocas mostra como esta forma de convívio sardoalense parece estar em declínio. O filme é arrematado com recolha de imagens de alguns arraiais do último Verão, onde parece pontuar uma personagem em tronco nú com um bailarico próximo das tradicionais danças do Burkina Faso e com “incentivos” tonitruantes à formação musical.
“O Senhor dos Pincéis – A Irmandade do Botequim” – A prova que aviar traçadinhos nos tascos pode ser imbuído de um espirito ecuménico. O saudável convívio entre trabalhadores da construção civil do Leste europeu e cidadãos lagartos de fígado estóico. Um relato comovente que mostra que a amizade e a esperança num mundo melhor são possíveis (mesmo em línguas totalmente diferentes, ucraniano e “lagartês enebriado”.)
“Jackass – The Neon Lights” – Documentário que mostra como alguns veículos automóveis da Vila Jardim começam a aparecer “artilhados” com múltiplas luzes de gosto algo incerto. Destaque para as passagens galantes nas noites sardoalenses, muito enriquecidas com vidros bem abertos e música “techno”, de vão de escada, em decibeis elevados, a fazer as delícias dos transeuntes. O universo do “tuning” como forma de expressão artística.
“Nascido para Gamar” – Acção e suspense num filme que é uma visão contemporânea sobre a vida de um delinquente numa pequena vila nos confins do Ribatejo Norte. A curiosidade do filme reside em ver como o deliquente se vai safando, saque após saque, impunemente.
“O Fabuloso Destino das Garrafas de Cerveja” – História singela que mostra como o Lagarto soube converter uma zona subaproveitada, o laranjal atrás do parque de estacionamento do mercado, em enorme vidrão de garrafas de cerveja. Para além de algumas referências realistas o filme acaba por desembocar numa justificação introspectiva para o lançamento de uma garrafa, tristemente vazia, de uma “mini” Cristal.
“Quatro casamentos, quatro bebedeiras do caraças” – Percurso festivo de um Lagarto num quente mês de Agosto por quatro fins de semana de casamentos concelhios. Um retrato social que permite analisar gostos de vestimenta duvidosos, ataques “cirúrgicos” ao camarão no “Copo de Água”, e “desvios” de pastéis de bacalhau para os bolsos do casaco. Um tratado sobre como se emborcam todas as garrafas de vinho “Lezíria” de um restaurante em 5 horas.
“Que a arte em todas as suas formas externas represente este nobre pensamento; que o drama, o poema, o romance sejam sempre um eco das eras poéticas da nossa terra.”
Alexandre Herculano, “O Bobo”