A massificação dos videojogos nos lares nacionais parece ter afastado as crianças dos tradicionais jogos de rua. Começa a ser raro ver a miudagem a jogar; às escondidas, à apanhada, aos índios e “cowboys”, mas sobretudo a jogar à bola. Estes jogos que fizeram a delícia de muitas crianças ao longo de várias décadas, são aos poucos substituídos pelos “Tomb Raiders”, “FIFAs” e outros da mesma laia.
Um dos jogos mais populares foi e será sempre o futebol. Jogava-se à bola desde que se saia da escola até que a noite se começava a instalar. O raspanete dos pais era certo pois os trabalhos de casa tinham sido protelados para horas tardias. O prazer de correr atrás de uma bola, mais uma vez, tinha sido mais forte que a vontade de estudar a tabuada do 8.
Os locais desses jogos assumiam o carisma de estádios com mística própria não fossem eles alguns dos lugares mais simbólicos da Vila Jardim. Jogava-se à bola no Adro (antes de levar calçada), no Sobreiro de Dona Maria, no pelado da antiga escola primária, no relvado do heliporto dos Bombeiros Municipais. Alguns desses recintos eram a “casa” de alguns bairros. Isto notava-se sobretudo quando o pessoal de um bairro se dirigia para o “seu” recinto e este já se encontrava ocupado por outros virtuosos da bola. Das duas uma, ou arranjava-se logo ali uma disputa bairrista, ou o grupo de fora era persuasivamente convidado a abandonar o local. Nem que fosse à pedrada...
Alguns desses jogos entre “bairros” davam às disputas o prestígio de “derby”. Ficam para a história alguns dos confrontos, de finais de 80 e princípios de 90, entre as Ruas Velhas e o Bairro e, algum tempo depois, entre a Tapada da Torre e a parte baixa da Vila. Para esses confrontos mais importantes tentava arranjar-se uma bola de “cauchu”, o que desde logo dava um outro carisma à partida. Convinha que o dono da bola fosse minimamente respeitado, não fosse ele chatear-se e meter a bola debaixo do braço. Se não houvesse uma bola suplente, que seria uma bola de borracha vulgar, sem câmara de ar, o pessoal tinha de ir para casa, frustrado, e adiar o desforço para ocasião mais conveniente.
Parece improvável que se volte a ver estas contendas futebolísticas nos dias de hoje. Talvez levando uma televisão e uma Playstation, com o último “FIFA”, para o Sobreiro se volte a ver a miudagem a “jogar” à bola por lá!...
"(...) numa época principalmente caracterizada pelo espírito de jerarquia, perpassavam rápidos ou lentos, apinhavam-se, disputavam, irritavam-se, riam, dispersavam-se."
Alexandre Herculano, "O Bobo"