Jet Bee
Apesar de não ser no Sardoal, a discoteca “Jet Bee”, em Abrantes, é a discoteca que há longos anos culmina muitas das noites de fim-de-semana do Lagarto.
A “Jet” é a discoteca de debute pré-adolescente Lagarto. A primeira ida à “Jet” serve como apresentação, um pouco pueril, à restante sociedade adolescente de todo o Ribatejo Norte. É a discoteca onde muitos Lagartos de uma faixa etária entre os 15 e os 30 anos fizeram a sua estreia disco-dançante. Muitos desses Lagartos também tiveram oportunidade e “chama” suficiente para fazerem outro tipo de “estreias” bem mais dissolutas...
A falta de oferta regional deste tipo de estabelecimentos de animação nocturna tem conduzido a “Jet” a soluções desleixadas e insípidas. (A concorrência é salutar em qualquer ramo de negócio, e isso ainda se nota mais neste tipo mercado.)
Uma actuação de Dj na “Jet” é, neste momento, e no mínimo, uma requintada delícia para melómanos. Em que outra discoteca se poderá ouvir, por exemplo, uma lamechice pop do Robbie Williams totalmente cilindrada por um punhado de batidas anárquicas; ou uma melodia simpática da Jennifer Lopez com uma aceleração de batidas por minuto que ultrapassa o bom senso. A voz da formosa Jenny parece ser substituída pela voz da personagem Lisa, dos “Simpsons”.
Apesar do ar entediado do Dj, noite fora, o “performer” dá mostras de algum altruísmo e a partir de determinada altura volta a repetir a mesma sequência de músicas, com que tinha “torturado” a clientela dançante duas horas antes. Assim, para quem chega mais tarde, é possível ficar a par daquelas músicas que foram grandes hits das pistas de dança há 4 anos atrás. Como se espera que um Dj seja dotado de um mínimo gosto musical, talvez a explicação possa ser assacada à míngua de brio de profissional...
A “Jet” usa um sistema de exaustão de fumos, no mínimo, original. O ambiente, a partir de determinada hora, fica tão carregado de gases de combustão de cigarros que para minimizar o sufoco dos clientes são accionadas umas turbinas para dissipar o fumo, junto à pista. Parece que os clientes, que estão a dar o seu pé de dança, vão ser sugados tecto acima.
A decoração da discoteca tem como linha dominante o minimalismo. O minimalismo de despesas... Tirando os posters comprados no hipermercado, ou os lençois pendurados, onduladamente, na pista de música latina, fica sempre aquela impressão que estamos num barracão que dá música.
Hoje uma ida à “Jet” pode ser uma experiência cheia de peripécias e próxima a um visionamento de uma edição da “BBC – Vida Selvagem”. É possível encontrar várias espécies dos frequentadores tipo de discotecas de província. Entre estas espécies destacam-se algumas que pelas suas características únicas sobressaem dentre as demais:
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Bailador” – esta espécie ocupa preferencialmente o topo das chamadas “colunas”. A partir deste ponto privilegiado, o “Bailador” aproveita a visão panorâmica para lançar olhares sedutores (pensará ele!...) às meninas dançantes, enquanto procura espernear-se ao máximo para se fazer notado. Escusado será dizer a alguns destes bailadores que o cabelo “à emigrante” já teve melhores dias...
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Perseguidor” – este género movimenta-se por toda a discoteca perseguindo uma vítima escolhida aleatoriamente dentre aquelas que tenham formas minimamente generosas. Após a escolha da “presa” a perseguição prossegue boa parte da noite, especialmente na “pista”. Se após o pedido, pouco original e entediante, “Posso-te conhecer?”, a resposta não for afirmativa aos seus intentos, a perseguição finda e é escolhida outra “presa”. Claro que há os “perseguidores”, “chatos como a potassa”, que mesmo após várias negas, continuam a aterrorizar uma pobre menina dançante que só queria passar a noite a menear-se com sons exóticos, tipo “Kuduro”.
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Avaliador” – o avaliador passa a maior parte da noite a mirar de cima a baixo as meninas pelas quais passa. Após tiradas as “medidas” é feita uma interjeição facial singular que mostra o ensejo desejado por todos os membros do grupo (os “avaliadores” movimentam-se em matilha), “Qual é a gaja que me vai pôr as hormonas na ordem?”. Obviamente a pergunta assume uma forma retórica pois não parece haver meninas disponíveis para “acalmar” uma horda masculina salivante...
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Esfregona” – o tipo “esfregona” é um dançarino que saracoteia próximo de um grupo de meninas isoladas nas quais se vai, literalmente, esfregando. Pode ser contemplado com um tabefe por uma menina mais empertigada, mas isso até é desejado pelo “esfregona” visto que o contacto físico intenso com alguém do sexo oposto é tão escasso que o tabefe pode converter-se num potente estimulante...
Eram necessárias, e desejáveis, mais discotecas aqui pela região. A diversidade da oferta seria boa para a clientela, que teria outros locais para terminar as suas noites e bom para a própria “Jet”, que deixaria de estar acomodada ao estatuto de única discoteca regional. Mas, mais uma vez, a iniciativa privada regional parece andar a dormir!...
"(...) trocam-se as interpelações e os risos entre os dançadores e os espectadores."
Pinheiro Chagas, "A Morgadinha de Valflor"