15.11.03

A escadaria do Convento estava assim ao final da tarde.



"Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta."

Fernado Pessoa, "O Livro do Desassossego"
Recanto de Conversa

Sardoal Virtual inaugura hoje uma área de conversação.
Espera-se que os Lagartos que a venham a frequentar saibam ter a liberdade de a usar, mas sem libertinagem.
Disponham. Pode entrar aqui, ou no link que se encontra na margem esquerda do seu browser.
Fica aqui o desejo de muitas horas de conversação sobre os humores / amores desta Vila Jardim.


"Então não voltas cá acima, a cavaquear com o femeaço?"

Eça de Queirós, "Os Maias"

14.11.03

Declarações de amor

Para alguém que se encontra enamorado um dos mais dificeis passos para a concretização desse amor é o momento da declaração. O medo da rejeição, a falta de coragem ou simples nervosismo, levam a que esse momento seja encarado como uma tarefa hercúlea por parte do jovem apaixonado. A escolha do local para uma declaração deste género também se reveste de enorme importância, pois a envolvência do local pode levar o coração pretendido, indeciso, a entregar-se nos seus braços. A essa entrega poderá não ser alheio o romantismo que o declarante demonstra ao escolher tão envolvente local.
Como sabem os Lagartos, não faltam nesta Vila recantos dotados com as caracterísitcas adequadas para declamar o romance à alma amada.
Sardoal Virtual deixa aqui algumas sugestões dos locais mais românticos da nossa Vila, bem como algumas sugestões de loas a ser empregues na ocasião, para que um momento tão importante como este seja devidamente enquadrado na beleza circundante.

Adro da Igreja Matriz;
“ (...) Meu amor que isto dure tanto quanto a infinitude do horizonte que daqui abarcamos e que as nossas noites sejam tão estimulantes quanto algumas coisas que se fumam nos recantos deste espaço. (...)”

Chafariz das Três Bicas;
“ (...) Que o nosso amor seja como o terramoto que abriu a fenda para a nascente que aqui vem desaguar, forte, longo, agitado mas nunca esquecido. Desejo que a nossa paixão tenha a fluidez e intensidade das águas que brotam destas três bicas. Se ainda fores casta terei a maior honra em desobrigar-te desses “três”... (...)”

Convento;
“ (...) Deste local altaneiro faço votos para que o nosso afecto atravesse tantos séculos como aqueles a que perdura Igreja de Santa Maria da Caridade. Desejando que o Senhor do Remédios nos ampare na velhice, ali no Lar, e forneça o vigor necessário para o cumprimento das minhas obrigações maritais. Sem Viagras... (...)”

Rua da Amoreira;
“ (...) A partir de hoje a tua vida será tão colorida, perfumada e diversificada como as plantas que florescem nesta rua. Faço palavra que todas as noites serás “galardoada” tão profusamente como foi esta rua quando havia Festas da Flor. (...)”

Sobreiro de Dona Maria;
“(...) Faço minha palavra de honra que te darei carinho, paixão e afecto em quantidade múltipla às folhas desta frondosa árvore. Prometo também ser um amante tão assíduo como os casais que aqui vêm, durante a noite, disseminar a sua fogosidade. (...)”

A Vila ficará encantada, por ter escolhido um dos seus sedutores escaninhos, para expressar o seu afecto. Por isso, essa paixão, a da Vila, não deixará de ter ganho.
Na pior das hipóteses, levará uma decepcionante nega ou um estalo de indignação, isto se a pessoa por quem se enamorou for dada à expressão violenta das suas emoções.


"Pela sua boca assistimos de antemão à tragédia de Gólgota no esplendor e no martírio... Logo depois começa a descrição da Paixão, e Isaías conclui o hino triunfal..."

Rebelo da Silva, "Fastos da Igreja"

13.11.03

A Bem da Salubridade



Os Lagartos que já estiveram longas horas a cavaquear, noite dentro, no Adro da Igreja Matriz sentiram concerteza necessidade de verter os seus fluídos. Uma rápida olhadela em redor descobre o sítio mais reservado para que o aflito Lagarto se liberte do incómodo e efectue calma e discretamente a sua micção. Esse "sítio" são as escadas junto à Casa do Adro. É aí que o Lagarto se desloca para urinar, nos degraus, ou muro sobranceiro à escadaria.
Sardoal Virtual sugere a instalação de um urinol, ou vários, no Adro para que se evite a propagação de odores desagradáveis por essa zona. Assim os turistas que percorram esse recanto já poderão apreciar devidamente os aromas emanados pelas flores do jardim próximo, sem que sintam os odores naturais emanados por fluído Lagarto. E também, para que não achem estranho que um pedaço de muro esteja estranhamente amaralecido, sem que isso seja salitre...
Para que o Sardoal não seja só uma Vila florida mas também (bem) cheirosa...


"...a falta de boas instalações sanitárias nas suas cidades..."

Erico Verí­ssimo, "A Volta do Gato Preto"

12.11.03

Tabagismos



Os recentes dísticos implantados nos maços de tabaco procuram demover do tabagismo ou reconverter os fumadores nacionais em cidadãos sãos, sem problemas de saúde e com hálito fresco. Vendo o pouco impacto que esses avisos estão a surtir na comunidade fumadora; não há fumador que não saiba os males que o vício esconde; Sardoal Virtual sugere a implantação de novos rótulos nos maços de tabaco, que tenham um cariz mais etnográfico, e que despertem medos e receios tão temerosos que levem os criadores de fumaceira a abandonar tão maléfico vício.
Seguem-se alguns exemplos dos novos dísticos que poderiam estar contidos nos maços de tabaco a ser vendidos na Vila Jardim:

- "Fumar pode levá-lo a deixar de gostar de Cozinha Fervida.";

- "Fumar provoca vontade de demolir o Pelourinho.";

- "Fumar pode retira-lhe a capacidade de ir para a Fonte Férrea bem acompanhado.";

- "Se fumar deixarão de lhe vender fiado nos balcões do Sardoal.";

- "Fumar pode dar-lhe vontade de deixar o Sardoal para sempre.";

- "Fumar leva-o a esquecer onde é a Praça Nova.";

- "Fumar diminui a virilidade natural do Lagarto.";

- "Fumar diminui a sua capacidade de apreciar a Rua da Amoreira.";

- "Fumar pode levar os bares desta terra a vender exclusivamente minis Cristal.";

- "Fumar desperta o seu lado feminino de sardoalense.";

- "O fumo dos seus cigarros destrói o Sobreiro de Dona Maria.";

- "Fumando poderá deixar de ser Lagarto."

Por certo, alguns Lagartos passariam a pensar duas vezes antes de voltar a cigarrar. Morrer todos morrem, agora deixar de ser Lagarto, livra!...


"O tabaco, planta que sendo por outras qualidades chamada erva-santa, o luxo dos homens lhe faz degenerar em vícios e virtudes."

Rocha Pita, "História da América Portuguesa I"

11.11.03

Barba e Cabelo

Os barbeiros estão em extinção acelerada. Os cabeleireiros foram ganhando terreno ao longo dos anos. Por estarem dotados de outras condições, por abordarem o ofí­cio de outra perspectiva, por incorporarem outros serviços que vão além do simples corte de cabelo.
Na nossa Vila vai restanto um barbeiro, mas a sua idade respeitável augura que em breve deixará de executar a sua arte e irá gozar as virtudes da reforma.
O sr. Manuel Victor meteu tesouras e lâminas em muitas cabeças desta terra. Muitos dos Lagartos fizeram os primeiros cortes de cabelo na barbearia do sr. Manuel Victor. De pequenitos, acompanhados pelos pais, dava-se entrada num mundo de adultos onde se ouviam discussões sobre futebol, política ou sobre o dia-a-dia da nossa terra.
Enquanto se aguardava, no cadeirão de madeira, o padrão dos mosaicos do pavimento permitia jogos mentais, nos quais se imaginavam descidas e subidas de escadas em múltiplas direcções. Logo chegava a nossa vez.
Devido à diminuta estatura do cliente, o sr. Manuel tinha uma tábua que se apoiava nos braços da cadeira de barbeiro, para elevar o petiz cliente à estatura de homenzinho. Era bom para o mister de barbeiro e era bom para o pequeno freguês, pois sentia-se mais próximo em estatura e importância dos clientes mais velhos.
Além dos primeiros cortes de cabelo, muitos jovens Lagartos tiveram outra "estreia" na barbearia do sr. Manuel Victor. Viram pela primeria vez o retrato de uma mulher nua. Quem conheceu o espaço sabe como a parede de fundo do estabelecimento estava pejado de calendários adornados por fotos de exóticas e encaloradas moçoilas. De pequenino...
A prova final que aproximava o infante cliente da maioridade era quando a navalha passava pelo fundo da nuca, para acertar o corte, seguida de uma massagem com álcool para desinfectar o pescoço. Dava um ardor tremendo, mas era obrigação do pequeno cliente não mostrar nenhum esgar de dor, afinal estava num meio de homens e queria mostrar a resistência deles.
Pagas as contas pelo serviço, abandonava-se a barbearia com um sorriso nos lábios. O corte estava bom, o calendário de 1985 tinha um retrato bastante apelativo, e durante largos minutos fez-se parte de um mundo, dos adultos, que ainda estaria distante por mais uns anos. Pior era a interpidez no pescoço...
Que o sr. Manuel Victor se mantenha por muitos anos a aparar as estruturas capilares dos Lagartos.


"Numa barbearia, adultos de bibe, sonolentos, deixavam-se escanhoar.(...)"

Miguel Torga, "A Criação do Mundo"

10.11.03

"Um Lagarto não paga minis, oferece grades."



O Sardoal é uma Vila com tradição de bons bebedores. Não necessariamente dependentes, não necessariamente recorrentes. Bebedores não pela bebida em si, mas mais pelo "catalizador" de tertúlia que proporciona. Conversa que se preze num bar, café, taberna ou nalgum outro recanto desta Vila, deve ser acompanhada por um bom vinho, algumas garrafas de cerveja ou, para os mais resistentes, bebidas generosas.
A frase que faz título a esta escritura foi proferida recentemente, 6ª feira passada, por um jovem Lagarto num dos bares desta terra e é reveladora da boa disposição e gosto pelo convívio dos sardoalenses.
Esta frase não significa que o Lagarto goste de beber até perder a lucidez, nem tão pouco que desfrute de uma satisfação especial por emborcar "minis" em quantidades estonteantes. No fundo, o que este mote quer transmitir é que enquanto houver algo para beber, há algo para conversar, para conviver, para reforçar a camaradagem.
Por isso, venha de lá mais uma grade que os Lagartos ainda têm muito para cavaquear...


"Naturalmente conversamos do passado, memórias pessoais, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fora, e rimos juntos, e suspiramos de companhia."

Machado de Assis, "Dom Casmurro"

9.11.03

Porque Hoje é Domingo

Uma Guerra Civil

Até que enfim pôz-se termo a uma guerra civil havida entre o Sr. António Branco Filhó, professor de instrução primária no Andreus e o Sr. João Dias Pereira, proprietário e negociante do Valongo, ambos do concelho do Sardoal.
Esta guerra foi começada entre os dois por causa de uns negócios que tinham, mas tão próspero ia tomando que já se achavam envolvidas nela muitas pessoas e já se tinham instaurado seis processos do primeiro que se achava pendente na Relação de Lisboa. Entretanto por intervenção de pessoas amigas dos dois guerreiros encarniçados – Filhó e Pereira – conseguiu-se pôr termo à questão, que certamente deixaria um em pêlo e o outro sem camisa.
Como lhe acudiram cêdo pouco ou nada gastaram terminando a questão por uma escritura pública em que o Sr. Filhó ficou em receber uma certa quantidade do Sr. Pereira. Além disso ficou este último com todos os negócios das cortiças. Melhor foi assim porque atendendo aos meios de fortuna de cada um, governam-se bem sem questões que só trazem desgostos.
Muitos parabéns aos seus amigos que conseguiram o bem estar dos dois, e suas famílias.”


Jornal Echo do Tejo
29 de Novembro de 1903

Jóli "vence" competição na "Foto Digital" Jóli - para quem ainda desconhece, digno e prezado "relações públ...