8.11.03

“Americanices”



O prestigiado “Guia American Express” na sua edição portuguesa sobre o nosso país, dedica ao Sardoal o seguinte parágrafo:

“A igreja de São Tiago e São Mateus, do século XVI, no Sardoal, 8 km a norte de Abrantes, exibe um belo Cristo com coroa de espinhos, do século XVI, do Mestre do Sardoal. Um painel de azulejos do século XVIII na fachada da capela do Espírito Santo, na Praça da República, homenageia Gil Vicente, o dramaturgo do século XVI que aí nasceu.”

Isto de ter um grupo de excursionistas, patrocinados por um cartão de crédito, a tentar guiar-nos pelas riqueza histórica, natural e patrimonial do nossa terra deixou-nos de imediato em sentido.
Em 480 páginas repletas de fotografias, textos, mapas; foi dedicado um parágrafo ao Sardoal. Nem uma pequena foto, nem uma descrição um pouco mais detalhada. Mas, mesmo compreendendo algumas limitações de espaço que uma publicação deste tipo possa ter, já não se compreende que nas 63 palavras que são dedicadas ao Sardoal se cometam as imprecisões que constam no texto acima. Os leitores mais atentos já detectaram os erros crassos que constam neste parágrafo do afamado guia. Para aqueles que não se revelaram tão cuidadosos na análise ao texto apresentado, seguem-se nos próximos parágrafos as devidas emendas.

Começamos com a diminuta imprecisão quilométrica da distância a Abrantes. Esta não parece ser gravosa e creio que nenhum Lagarto se sentirá ofendido com ela.
A Igreja Matriz é uma obra do século XV, embora tenha sofrido restauros e alterações ao longo dos séculos, inclusivé no século XVI.
Dizem-nos que a Igreja Matriz “exibe um belo Cristo com coroa de espinhos”. É uma escultura? É um quadro? Nada é dito sobre o tipo de “Cristo”! Concerteza que quem conhece o Sardoal e sabe o que foi o “Mestre do Sardoal” sabe que se fala de quadros. Então e os que não conhecem?...
O painel de azulejos na fachada lateral direita da capela do Espírito Santo, é do século XX, 1934, da autoria de Gabriel Constante. Aqui o roteiro falha por mais de dois séculos...
Para terminar, em jeito de piada finalizadora, é atribuído a Gil Vicente o estatuto de “Lagarto”. Estamos certos que Gil Vicente não se importaria ter nascido sardoalense, e tão pouco os “Lagartos” se importariam de ter Gil Vicente como conterrâneo. No entanto tão profícuo e importante autor foi nado em outras paragens...

As devidas correcções já foram encaminhadas para a respectiva editora. A bem do rigor.
Falem pouco mas sem erros...


“...pela fresta da porta, torcia o nariz à pífia excelência excursionista.”

Monteiro Lobato, “Cidades Mortas”

7.11.03

Préstimo

Este vosso escriba procurou esboçar algumas reuniões de palavras sobre o que é "Ser Jovem no Sardoal". Pode lê-las aqui.


"Posso discordar em opiniões dos meus amigos; quero essa liberdade; não a dou por coisa alguma."

Almeida Garrett, "Discursos Parlamentares"
Neste final de tarde, as obras do Centro Cultural estão assim.



"Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer."

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Vila de Alterne

A depressão colectiva que por estes dias afecta o país, também faz as suas vítimas na nossa Vila. Muitos “Lagartos” comungando dos sentimentos de desânimo nacionais, andam pela rua cabisbaixos, revolvendo os bolsos à procura de alguns centavos, tentado ter alguma esperança em manter os seus postos de trabalho, acreditando que um dia o Benfica voltará a ganhar alguma coisa. Esperam pela chegada de dias mais animadores e esperançosos.
Uma das boas maneiras para ultrapassar este esmorecimento colectivo poderia passar pela importação de algumas meretrizes sul americanas que devolvessem aos “Lagartos” a sua euforia intrínseca e alguma confiança no dia de amanhã.
Como se sabe as sul-americanas, em especial as brasileiras, são pessoas deveras dadas, com uma alegria contagiante, e que conseguem converter, com simples artimanhas lascivas, um homem cinzento e deprimido, num homem feliz e com um desmedido sorriso nos lábios.
A integração destas cidadãs sul-americanas na nossa comunidade poderia ser feita por um colectivo das nossas mais reputadas cidadãs no ofício copulativo. (É importante saber integrar as comunidades estrangeiras na nossa comunidade, para evitar a formação de “guetos”. Neste caso, casas de alterne.)
Estas nossas cidadãs poderiam prestar alguns esclarecimentos acerca das preferências “posicionais” dos “Lagartos”, indicar os melhores locais da Vila para dar asas ao desejo, aconselhar tácticas de dissimulação e subversão perante o cônjuge, entre outras dicas que tão bem têm sido aplicadas, por estas bandas, nos últimos tempos.
Este movimento trans-atlântico de solidariedade com alguma fortuna poderia ser capa de algumas publicações internacionais, a exemplo do que sucedeu na animada cidade de Bragança, promovendo o Sardoal além fronteiras.
Com esta iniciativa os “Lagartos” ganhariam uma nova dinâmica anímica, e renovariam um pouco o “jardim”, deixando de lado a “poda” às “Sardinheiras” e passando a “adubar” alguns exóticos pés de “Sempre Vivas”.


"Salva Deus uma Pelágia meretriz para que todas as que a imitarem no trato saibam que se as imitarem em penitência também as salvará"

Manuel Bernardes, "Os`Últimos Fins do Homem"

6.11.03

Saudades



A saudade é o sentimento que melhor define o povo português. Temos saudades de ver pessoas, saudades de viver determinadas situações, saudades de sentir um cheiro, um sabor ou uma sensação táctil, saudades de sentir uma emoção, saudades de sentir saudades; no fundo temos saudades de tudo de bom que já ficou para trás.
Os "Lagartos" também têm as suas saudades, muitas delas de coisas que nunca mais se irão repetir. Restam-nos as recordações, as boas, para que algumas coisas não se deixem cair no esquecimento...

- Saudades de ir jogar ping pong ao Café Progresso (porque existem "personagens" que não devem ser esquecidas);

- Saudades da Festa da Flor (a par da Semana Santa era a festividade que melhor nos explicava enquanto povo);

- Saudades dos espectáculos do Getas nas Festas do Concelho (porque eram os momentos altos das Festas e tinham uma qualidade admirável);

- Saudades das noites de Verão no Café Dias (nunca mais houve um espaço de tertúlia como aquele);

- Saudades dos pregões da Ti Maria Cosme (porque a tradição também é feita de pessoas "típicas");

- Saudades do Cine-Teatro Gil Vicente (e de muitas coisas que por lá se fizeram);

- Saudades do "Borboleta" como banheiro da Piscina Municipal (porque sabia fazer-se respeitar pelos banhistas);

- Saudades de ouvir as emissões da Rádio Sardoal (porque os media locais são o melhor meio de difusão da nossa cultura);

- Saudades de ver a Palmeira da Casa Grande (porque nos dava as boas vindas lá do alto, quando chegávamos à Vila);

- Saudades do "Badaró" a varrer as ruas (porque depois dele, as varridelas deixaram de se fazer com o mesmo afinco).


"(...)Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra."

José Afonso, "Natal dos Simples"

5.11.03

Esperança no Futuro

Desde a mais tenra infância é desejo do "Lagarto" viver toda a sua existência na Vila que tanto gosta. Mas o amor à terra onde se nasceu, muitas vezes, não é o suficiente para se fixar definitivamente ao local onde tem as suas raízes.
Vicissitudes da vida, mas maior parte das vezes falta de oportunidades, levam à partida para paragens mais distantes. Paragens onde seja mais fácil, a concretização dos sonhos que se vão gerando ao longo da vida, onde as condições para se estabelecer sejam mais tentadoras e apelativas. No fundo, o que todos querem é, um emprego estável, bem remunerado; habitação (que não seja excessivamente onerosa); oferta cultural regular e diversificada; no fundo qualidade de vida.
A principal causa desta "fuga" de jovens é a deficitária oferta de emprego. Como é sabido a economia do concelho não é suficientemente sólida e robusta para absorver toda a nova geração que procura emprego, sobretudo os jovens que estão a acabar os seus cursos superiores. Se a oferta de emprego para quem tem o 12º ano de escolaridade é escassa, para jovens licenciados é nula. (E por muito boa vontade que haja a Câmara Municipal não pode empregar toda a gente!...)
Quanto à habitação o mal é geral. Mas os jovens por serem menos dotados financeiramente têm ainda mais dificuldades em obter habitação. Tão díficil como obter o primeiro emprego, é adquirir a primeira habitação em condições que não coloquem um torniquete nas finanças do jovem arrendatário. Além de dispendiosa as habitações no Sardoal são escassas, sobretudo na chamada habitação social, que seria um bom tirocínio para os jovens, até que não estejam dotados das condições económicas necessárias à aquisição de habitação própria.
A oferta cultural, ainda que escassa na Vila (não há quem produza mas também não há quem assista), é bastante regular em localidades bem próximas de nós, e mesmo mais distantes fisicamente mas próximas temporalmente. Longe vai o tempo em que o Sardoal parecia estar no fim do mundo e a longas horas de viagem de qualquer ponto do litoral. Durante décadas o cenário foi bem pior. A melhoria das redes viárias colocaram-nos mais próximos da dita "civilização". Hoje estamos a 1:30 de Lisboa, a 1:30 das praias do litoral, a 2:00 da neve (Serra da Estrela). Noutros tempos pareciamos estar no fim do mundo. Benditas auto-estradas...
Neste momento está a ser formada nas salas de aula das escolas e universidades deste país a geração mais letrada de sempre do nosso concelho. É uma oportunidade única na nossa história para que se dê um forte impulso à criação de condições para reter os jovens na Vila.
O Sardoal tem quase todas as condições para dotar os seus cidadãos com uma qualidade de vida de excepção. É uma Vila acolhedora, calma, bonita, tranquila, segura, com bons ares, com riqueza histórica e patrimonial, dotada de quase todas as infraestruturas (algumas em conclusão, outras que estão a caminho), servida por uma excelente rede viária, no entanto falta o principal...
Não há quem tenha uma varinha de condão que possa magicar a solução para este problema mas concerteza que poderemos encontrar pequenas soluções para evitar que, década após década, a Vila se vá esvaziando de pessoas, sobretudo jovens.
Para que um dia não se olhe para trás e se veja como se deixou fugir esta geração para outras paragens.


"Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar – e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota?"

Eça de Queirós, "A Cidade e as Serras"

4.11.03

Previsões do Oráculo



Para quem se andava a indagar pela data de inauguração do novel "Parque de Merendas", houve finalmente uma resposta bem visível.
Foi na madrugada de Domingo, que uma brigada de "videntes", colocou uma faixa de dimensões generosas no recinto do Parque, fazendo uma previsão de inauguração para o ano de 2013.
Tendo em conta o desejo manifestado por tão predestinados cidadãos, sugerimos o adiamento da inauguração para uma data ainda mais distante, 2031. Desta forma teremos a primeira obra para inaugurar nos festejos dos 500 anos da elevação do Sardoal a Vila, e respeitando (ainda mais convictamente) o apelo desses reaccionários cidadãos poderemos prolongar por mais uns anos (largos) a finalização das obras do referido parque.
Até porque, há quem precise de ter alguma "miudeza" que vá podendo criticar...


"Protesto, Sr. Presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na sombra de um príncipe ausente, indefeso e respeitável como todos os desgraçados. Que história vilã é esta?"

Camilo Castelo Branco, "A Queda de Um Anjo"

3.11.03

Mexerico Eleitoral



Apesar de estarmos a pouco mais de dois anos das próximas eleições autárquicas, Sardoal Virtual avança em primeira mão, que já se iniciaram as movimentações nos bastidores, de algumas forças políticas do nosso concelho. Algumas personalidades parecem já ter sido indagadas, e estamos em condições de avançar aquela que poderá ser a grande surpresa nas listas das próximas eleições autárquicas.
Jóli foi convidado por alguns partidos polí­ticos para assumir um lugar de destaque nos orgãos autárquicos da nossa Vila. Sabemos que Jóli se encontra algo hesitante, pois apesar da sua enorme vontade de trabalhar em prol do Sardoal, as suas tendências polí­ticas são algo distantes das doutrinas professadas pelas mais representativas facções políticas da nossa terra.
Aguardam-se desenvolvimentos desta notícia pois a sua confirmação será um forte indicador da força polí­tica que se apresentará na pole-position para as próximas eleições.
Prevê-se uma vitória folgada da força política que consiga convencer tão distinto concidadão a ingressar nas suas fileiras.


"Esta palavra (politicagem) não traduz ainda todo o desprezo do objecto significado. Quem lhe dará baptismo adequado? Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha?"

Rui Barbosa, "Colectânea Literária"

Jóli "vence" competição na "Foto Digital" Jóli - para quem ainda desconhece, digno e prezado "relações públ...