És uma rameira! Enrolas-me e eu acredito em ti! Só posso acreditar...
As tuas formas são generosas, vestes-te bem, com várias cores e vários matizes.
Encantas-me a vista e a alma. Fazes-me sorrir e enternecer.
Às vezes inebrias-me com esses aromas que transpiras, uma doce combinação de pinho, malvas e oliveira. Mas mesmo nesses momentos de menor lucidez não me enganas! Sei bem que tens outros amantes...
Gostas de conquistá-los no Adro da Igreja, no Chafariz, na Rua da Amoreira, no Pelourinho... Não há melhores sítios para mostrar os teus encantos.
Naquelas noites em que te vestes de negro, as velas se acendem, e nas ruas só se ouvem murmúrios e ladainhas, nas pausas da Filarmónica, fico emocionado quando te olho. Tu também és tolhida pela comoção e ficas com um ar circunspecto e triste. Depois de tanto nos arrepiarmos com as emoções dessas noites desconfio que, também tu, não sejas capaz de suster uma lágrima.
Noutras alturas, quando há luzes, música, movimento, tasquinhas e gente, muita gente, não resistes a vestir o teu melhor vestido e partir para a conquista. Muitas pessoas te olham e cobiçam. Ficas tão vaidosa... Mas sempre altruísta! Só te embriagas depois de nos teres embebedado. Não queres que te vejam vadia e bêbeda... Durante algumas noites vais deitar-nos, já com o sol a despontar no horizonte, meio embriagados, meio cansados, mas felizes por te conhecer e por sermos de alguma forma parte de ti.
Por vezes maltratam-te. Declaram-se em amores e paixões, cíclicas, mas no fundo só se querem servir de ti. Mas tu não te importas. Estás sempre de braços abertos para todos...
Apesar de libertina e franca não deixas de ostentar algum mistério na tua aparência. Que és tu afinal?! Alentejana? Beirã? Ribatejana?
Adoras estender-te ao Sol no Convento. Gostas de sentir a chuva a humedecer-te as rugas na Praça Nova. Pois é, tu já tens rugas mas isso não faz de ti velha antiquada e jarreta. O teu espírito continua a ser jovial e aposto que a tua beleza se vai conservar por muitos mais anos.
Adoras que te mirem e percorram as tuas delicadas formas. És uma sedutora incansável. Cada desconhecido é uma conquista que tens de fazer. E quase sempre todos enlevas...
Só tu sabes como ser acolhedora e afável. Adoras dar flores, muitas flores, com muitas cores e muitas fragrâncias. Qualquer jardim, muro ou sacada te serve de pretexto para nos presenteares com um ramo de rosas, cravos, malmequeres. Mas as flores que mais gostas são as sardinheiras...
Nunca recusas novas amizades, novos amores. Pedes que mais pessoas venham até ti, sabes que não te vão resistir.
De todos queres atenção. Todos te amam. Todos te querem. A todos te ofereces...
És uma desavergonhada! Mas como te gosto Vila Jardim.
"(...) um amor que ostentas sem recato, chegando a sujeitar à apreciação cínica desses doidos a mulher que dizes objecto dele; um amor que não procuras ocultar com aquele casto e natural pudor de alma deveras apaixonado."
Júlio Dinis, "Os Fidalgos da Casa Mourisca"