13.11.03

A Bem da Salubridade



Os Lagartos que já estiveram longas horas a cavaquear, noite dentro, no Adro da Igreja Matriz sentiram concerteza necessidade de verter os seus fluídos. Uma rápida olhadela em redor descobre o sítio mais reservado para que o aflito Lagarto se liberte do incómodo e efectue calma e discretamente a sua micção. Esse "sítio" são as escadas junto à Casa do Adro. É aí que o Lagarto se desloca para urinar, nos degraus, ou muro sobranceiro à escadaria.
Sardoal Virtual sugere a instalação de um urinol, ou vários, no Adro para que se evite a propagação de odores desagradáveis por essa zona. Assim os turistas que percorram esse recanto já poderão apreciar devidamente os aromas emanados pelas flores do jardim próximo, sem que sintam os odores naturais emanados por fluído Lagarto. E também, para que não achem estranho que um pedaço de muro esteja estranhamente amaralecido, sem que isso seja salitre...
Para que o Sardoal não seja só uma Vila florida mas também (bem) cheirosa...


"...a falta de boas instalações sanitárias nas suas cidades..."

Erico Verí­ssimo, "A Volta do Gato Preto"

12.11.03

Tabagismos



Os recentes dísticos implantados nos maços de tabaco procuram demover do tabagismo ou reconverter os fumadores nacionais em cidadãos sãos, sem problemas de saúde e com hálito fresco. Vendo o pouco impacto que esses avisos estão a surtir na comunidade fumadora; não há fumador que não saiba os males que o vício esconde; Sardoal Virtual sugere a implantação de novos rótulos nos maços de tabaco, que tenham um cariz mais etnográfico, e que despertem medos e receios tão temerosos que levem os criadores de fumaceira a abandonar tão maléfico vício.
Seguem-se alguns exemplos dos novos dísticos que poderiam estar contidos nos maços de tabaco a ser vendidos na Vila Jardim:

- "Fumar pode levá-lo a deixar de gostar de Cozinha Fervida.";

- "Fumar provoca vontade de demolir o Pelourinho.";

- "Fumar pode retira-lhe a capacidade de ir para a Fonte Férrea bem acompanhado.";

- "Se fumar deixarão de lhe vender fiado nos balcões do Sardoal.";

- "Fumar pode dar-lhe vontade de deixar o Sardoal para sempre.";

- "Fumar leva-o a esquecer onde é a Praça Nova.";

- "Fumar diminui a virilidade natural do Lagarto.";

- "Fumar diminui a sua capacidade de apreciar a Rua da Amoreira.";

- "Fumar pode levar os bares desta terra a vender exclusivamente minis Cristal.";

- "Fumar desperta o seu lado feminino de sardoalense.";

- "O fumo dos seus cigarros destrói o Sobreiro de Dona Maria.";

- "Fumando poderá deixar de ser Lagarto."

Por certo, alguns Lagartos passariam a pensar duas vezes antes de voltar a cigarrar. Morrer todos morrem, agora deixar de ser Lagarto, livra!...


"O tabaco, planta que sendo por outras qualidades chamada erva-santa, o luxo dos homens lhe faz degenerar em vícios e virtudes."

Rocha Pita, "História da América Portuguesa I"

11.11.03

Barba e Cabelo

Os barbeiros estão em extinção acelerada. Os cabeleireiros foram ganhando terreno ao longo dos anos. Por estarem dotados de outras condições, por abordarem o ofí­cio de outra perspectiva, por incorporarem outros serviços que vão além do simples corte de cabelo.
Na nossa Vila vai restanto um barbeiro, mas a sua idade respeitável augura que em breve deixará de executar a sua arte e irá gozar as virtudes da reforma.
O sr. Manuel Victor meteu tesouras e lâminas em muitas cabeças desta terra. Muitos dos Lagartos fizeram os primeiros cortes de cabelo na barbearia do sr. Manuel Victor. De pequenitos, acompanhados pelos pais, dava-se entrada num mundo de adultos onde se ouviam discussões sobre futebol, política ou sobre o dia-a-dia da nossa terra.
Enquanto se aguardava, no cadeirão de madeira, o padrão dos mosaicos do pavimento permitia jogos mentais, nos quais se imaginavam descidas e subidas de escadas em múltiplas direcções. Logo chegava a nossa vez.
Devido à diminuta estatura do cliente, o sr. Manuel tinha uma tábua que se apoiava nos braços da cadeira de barbeiro, para elevar o petiz cliente à estatura de homenzinho. Era bom para o mister de barbeiro e era bom para o pequeno freguês, pois sentia-se mais próximo em estatura e importância dos clientes mais velhos.
Além dos primeiros cortes de cabelo, muitos jovens Lagartos tiveram outra "estreia" na barbearia do sr. Manuel Victor. Viram pela primeria vez o retrato de uma mulher nua. Quem conheceu o espaço sabe como a parede de fundo do estabelecimento estava pejado de calendários adornados por fotos de exóticas e encaloradas moçoilas. De pequenino...
A prova final que aproximava o infante cliente da maioridade era quando a navalha passava pelo fundo da nuca, para acertar o corte, seguida de uma massagem com álcool para desinfectar o pescoço. Dava um ardor tremendo, mas era obrigação do pequeno cliente não mostrar nenhum esgar de dor, afinal estava num meio de homens e queria mostrar a resistência deles.
Pagas as contas pelo serviço, abandonava-se a barbearia com um sorriso nos lábios. O corte estava bom, o calendário de 1985 tinha um retrato bastante apelativo, e durante largos minutos fez-se parte de um mundo, dos adultos, que ainda estaria distante por mais uns anos. Pior era a interpidez no pescoço...
Que o sr. Manuel Victor se mantenha por muitos anos a aparar as estruturas capilares dos Lagartos.


"Numa barbearia, adultos de bibe, sonolentos, deixavam-se escanhoar.(...)"

Miguel Torga, "A Criação do Mundo"

10.11.03

"Um Lagarto não paga minis, oferece grades."



O Sardoal é uma Vila com tradição de bons bebedores. Não necessariamente dependentes, não necessariamente recorrentes. Bebedores não pela bebida em si, mas mais pelo "catalizador" de tertúlia que proporciona. Conversa que se preze num bar, café, taberna ou nalgum outro recanto desta Vila, deve ser acompanhada por um bom vinho, algumas garrafas de cerveja ou, para os mais resistentes, bebidas generosas.
A frase que faz título a esta escritura foi proferida recentemente, 6ª feira passada, por um jovem Lagarto num dos bares desta terra e é reveladora da boa disposição e gosto pelo convívio dos sardoalenses.
Esta frase não significa que o Lagarto goste de beber até perder a lucidez, nem tão pouco que desfrute de uma satisfação especial por emborcar "minis" em quantidades estonteantes. No fundo, o que este mote quer transmitir é que enquanto houver algo para beber, há algo para conversar, para conviver, para reforçar a camaradagem.
Por isso, venha de lá mais uma grade que os Lagartos ainda têm muito para cavaquear...


"Naturalmente conversamos do passado, memórias pessoais, casos de estudo, incidentes de nada, um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu cá fora, e rimos juntos, e suspiramos de companhia."

Machado de Assis, "Dom Casmurro"

9.11.03

Porque Hoje é Domingo

“Uma Guerra Civil

Até que enfim pôz-se termo a uma guerra civil havida entre o Sr. António Branco Filhó, professor de instrução primária no Andreus e o Sr. João Dias Pereira, proprietário e negociante do Valongo, ambos do concelho do Sardoal.
Esta guerra foi começada entre os dois por causa de uns negócios que tinham, mas tão próspero ia tomando que já se achavam envolvidas nela muitas pessoas e já se tinham instaurado seis processos do primeiro que se achava pendente na Relação de Lisboa. Entretanto por intervenção de pessoas amigas dos dois guerreiros encarniçados – Filhó e Pereira – conseguiu-se pôr termo à questão, que certamente deixaria um em pêlo e o outro sem camisa.
Como lhe acudiram cêdo pouco ou nada gastaram terminando a questão por uma escritura pública em que o Sr. Filhó ficou em receber uma certa quantidade do Sr. Pereira. Além disso ficou este último com todos os negócios das cortiças. Melhor foi assim porque atendendo aos meios de fortuna de cada um, governam-se bem sem questões que só trazem desgostos.
Muitos parabéns aos seus amigos que conseguiram o bem estar dos dois, e suas famílias.”


Jornal Echo do Tejo
29 de Novembro de 1903

8.11.03

“Americanices”



O prestigiado “Guia American Express” na sua edição portuguesa sobre o nosso país, dedica ao Sardoal o seguinte parágrafo:

“A igreja de São Tiago e São Mateus, do século XVI, no Sardoal, 8 km a norte de Abrantes, exibe um belo Cristo com coroa de espinhos, do século XVI, do Mestre do Sardoal. Um painel de azulejos do século XVIII na fachada da capela do Espírito Santo, na Praça da República, homenageia Gil Vicente, o dramaturgo do século XVI que aí nasceu.”

Isto de ter um grupo de excursionistas, patrocinados por um cartão de crédito, a tentar guiar-nos pelas riqueza histórica, natural e patrimonial do nossa terra deixou-nos de imediato em sentido.
Em 480 páginas repletas de fotografias, textos, mapas; foi dedicado um parágrafo ao Sardoal. Nem uma pequena foto, nem uma descrição um pouco mais detalhada. Mas, mesmo compreendendo algumas limitações de espaço que uma publicação deste tipo possa ter, já não se compreende que nas 63 palavras que são dedicadas ao Sardoal se cometam as imprecisões que constam no texto acima. Os leitores mais atentos já detectaram os erros crassos que constam neste parágrafo do afamado guia. Para aqueles que não se revelaram tão cuidadosos na análise ao texto apresentado, seguem-se nos próximos parágrafos as devidas emendas.

Começamos com a diminuta imprecisão quilométrica da distância a Abrantes. Esta não parece ser gravosa e creio que nenhum Lagarto se sentirá ofendido com ela.
A Igreja Matriz é uma obra do século XV, embora tenha sofrido restauros e alterações ao longo dos séculos, inclusivé no século XVI.
Dizem-nos que a Igreja Matriz “exibe um belo Cristo com coroa de espinhos”. É uma escultura? É um quadro? Nada é dito sobre o tipo de “Cristo”! Concerteza que quem conhece o Sardoal e sabe o que foi o “Mestre do Sardoal” sabe que se fala de quadros. Então e os que não conhecem?...
O painel de azulejos na fachada lateral direita da capela do Espírito Santo, é do século XX, 1934, da autoria de Gabriel Constante. Aqui o roteiro falha por mais de dois séculos...
Para terminar, em jeito de piada finalizadora, é atribuído a Gil Vicente o estatuto de “Lagarto”. Estamos certos que Gil Vicente não se importaria ter nascido sardoalense, e tão pouco os “Lagartos” se importariam de ter Gil Vicente como conterrâneo. No entanto tão profícuo e importante autor foi nado em outras paragens...

As devidas correcções já foram encaminhadas para a respectiva editora. A bem do rigor.
Falem pouco mas sem erros...


“...pela fresta da porta, torcia o nariz à pífia excelência excursionista.”

Monteiro Lobato, “Cidades Mortas”

7.11.03

Préstimo

Este vosso escriba procurou esboçar algumas reuniões de palavras sobre o que é "Ser Jovem no Sardoal". Pode lê-las aqui.


"Posso discordar em opiniões dos meus amigos; quero essa liberdade; não a dou por coisa alguma."

Almeida Garrett, "Discursos Parlamentares"

Jóli "vence" competição na "Foto Digital" Jóli - para quem ainda desconhece, digno e prezado "relações públ...