30.9.03

Jóli, o cão que é malta!



Todas as terras têm as suas figuras. Símbolos que atravessam gerações, e que, devido a alguma excentricidade, se tornam populares, tornando-se parte do património cultural de todo um povo. Há os bêbados, as mulheres de mau porte, aqueles que ainda conservam alguma profissão mais tradicional ou fora do comum, aqueles a quem "falta um parafuso", e há também os que conjugam um pouco das características anteriores. No Sardoal há todo esse tipo de gente. E há o Jóli!
Começo por dizer, para quem não sabe, que Jóli é um cão. Sem donos definidos, com muitos amigos indefinidos. E é, provavelmente a figura mais popular do Sardoal, neste início de século. O Jóli é um boémio. É possível encontrá-lo virtualmente em qualquer local onde haja o menor indício de festa. E se não vai pelos seus meios, alguém o há-de levar. Sim, porque dão boleia ao Jóli, para bares, discotecas, arraiais populares. Ele sabe o que fazer quando se abre a porta do carro. Senta-se no banco de trás (sente-se inseguro no lugar do pendura), e é vê-lo sentado nas patas de trás, como que dizendo, "Para onde vamos? Onde é a festa?". E é vê-lo chegar ao local, e ser cumprimentado por todos. Ele nunca nega um cumprimento.
Muitas vezes o Jóli parece ter o dom da ubiquidade. Estamos num bar, com o Jóli a circular entre o pessoal, mudamos de local e lá está o Jóli, a cirandar, como se de um local para outro, o seu único esforço, fosse um passe de mágica. O Jóli pode aparecer nos locais mais inesperados, às horas mais inusitadas, mas é natural que o faça, é sinal que um bom grupo de farra está reunido.
O Jóli não ladra, é raro responder aos outros cães, até porque não está para isso. Ele quer é boa disposição, e estar entre os amigos, sem "más ondas". É também uma questão de classe, ele sabe que é cão, mas não se porta como tal, ele só responde na sua língua, e essa vai muito para além dos latidos.
O Jóli tem hábitos, porque nem só o homem é um animal de hábitos, dorme de dia, anda de noite. Na Semana Santa costuma estar junto ao Café Avenida, deitado, a ver as procissões passarem, e sempre acompanhado. O Jóli não vai às cadelas! Até correm rumores acerca da sua sexualidade, mas nem isso lhe tira popularidade... Acho até que o Jóli poderia integrar uma lista nas próximas eleições autárquicas, ficaria bem como vogal de uma Junta de Freguesia, e ninguém como ele, corre estes caminhos, de dia e de noite (especialmente à noite), e se dá bem com toda a gente.
Todos temos histórias com o Jóli, algumas que parecem quase de ordem do sobrenatural. Talvez seja por isso que ele é tão popular, todos nós temos um bocadinho de Jóli na nossa vida.

O Jóli não é pessoa, mas é gente...


"Alguém falou da tristeza e do vazio do olhar dos animais. Vi a tristeza, em certos momentos, no olhar do cão. A tristeza de quem quer chegar à palavra e não consegue. Mas não vi o vazio. O vazio está talvez nos nossos olhos. Quando por vezes nos perdemos dentro de nós mesmos. Ou quando buscamos um sentido e não achamos.
O cão sabia o sentido, o seu sentido. E nunca se perdia."

Manuel Alegre, "Cão Como Nós"

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