Breve publicação, profusa em estúrdia e estultícia, ou não, dedicada à "última fronteira" do Ribatejo Norte.
18.6.04
Em tempos idos, eram diversos os casais que aproveitavam os múltiplos recantos da Fonte Férrea para temperar os seus romances com uma pitada de paixão mais dissoluta.
Aproveitando um espaço propício à comunhão com a natureza - as rãs coaxam; a água corre pelo ribeiro; o arvoredo do Vale da Mata enche as vistas com um bonito colorido – os pares românticos espalhavam-se pelos diversos escaninhos da Fonte, sabendo sempre que estavam seguros o suficiente para não serem apanhados em flagrante em actividades que muita beata (e por estas bandas existem umas quantas...) condenariam e coscuvilhariam por toda a Vila. Esta segurança advém do facto de existir somente um caminho de acesso à Fonte, logo facilmente se controlam os acessos de quem entra no seu espaço.
Este “regresso” dos pares românticos à Fonte Férrea teria duas vantagens. Primeira, o espaço da Fonte deixaria de estar um pouco ao abandono. Segunda, numa altura em muito casal anda por caminhos esconsos no alto do Andreus a dar asas à paixão (tanto que aquela zona já está na rota de passeio de algumas alcoviteiras), o regresso à Fonte seria o regresso da paixão à Vila. Estamos a chegar ao Verão e a “Lagartagem” precisa de se entreter nas conversas de café e de padaria a falar de mais um casal de “Lagartos” apanhado em comportamentos libertinos nos fontanários...
“Porque contra o competente decoro, que é uma das mais honrosas leis da natureza, ninguém pode sem delito ser licensioso.”
D. Francisco Manuel de Melo, “Apólogos Dialogais”
15.6.04
Chegado o Verão o cruzamento com determinadas exemplares de “Lagartos” pode ser uma experiência particularmente desagradável para as narinas dos transeuntes. Parece que muitos se esquecem que o calor conduz a aumentos de exsudação consideráveis. Isto não é acompanhado pelo aumento da frequência de duches ou pelo uso de desodorantes que amenizem os suores da época. O resultado deste desleixo não é mais do que umas brisas odoríferas de difícil encaixe nos padrões odoríferos do “Lagarto” comum.
Apesar disso, para alguns “Lagartos” estes odores parecem ter alguma utilidade. Algumas brisas de sovaco são tão intensas que parecem ter um efeito semelhante a algumas substâncias estupefacientes. A cabeça até fica à roda!...
“Os homens tinham as testas luzentes de suor (...)”
Antero de Figueiredo, “Dom Pedro e Dona Inês”
14.6.04
Em tempo de Euro 2004 já se sabe que os ajuntamentos de adeptos de futebol, durante as partidas do campeonato, crescem de forma considerável. Mas não é somente o número de espectadores que aumenta nos cafés por estes dias. A cerveja, velha “aliada” dos espectadores da bola, tem escorrido pelas gargantas em quantidades consideráveis. Juntando ao Euro o calor que se tem feito sentir, estamos nas condições desejadas pelas cervejeiras para aumentar a facturação.
No entanto, e apesar das promoções de alguns cafés aqui da Vila, sucessivas rodadas de “minis” podem sair algo dispendiosas para alguns bolsos “lagartos” menos abonados financeiramente. Sardoal Virtual não quer que ninguém fique com mágoas por “afogar” (o pior é se “elas” nadam bem que se fartam!..) e decidiu lançar um conceito que espera ser aproveitado pela iniciativa privada local. Se existem medicamentos “genéricos”, porque não criar uma cerveja “Genérica”? A “Genérica” seria uma cerveja sem marca (logo mais barata) e com os mesmo princípios activos das cervejas de marca. Aliás, os resultados desejados pelos bebedores “lagartos” das cervejas convencionais manter-se-iam com a cerveja “Genérica”: refrescar gargantas, comemorar golos e acompanhar tremoços e amendoins.
As rodadas passariam a ser um pouco mais baratas e dessa forma ninguém ficaria sem bebida para acompanhar as doses de caracóis.
“São mais 12 “Genéricas” e três doses de caracóis para a mesa do canto.”
“Emborcou num quiosque um copo de cerveja(...)”
Manuel Ribeiro, “O Deserto”
13.6.04
"Desastre
No dia 21, pelas 9 horas, quando o soldado Manuel da Silva Tavares, regressando da Aldeia das Eiras, onde tinha ido visitar seus pais, ao passar à Ponte do Ramal, desta Vila, foi cair numa horta à profundidade de 10 metros.
Da desastrosa queda, resultou a fractura duma perna. Socorrido de urgência, foi o facto comunicado para o seu Regimento em Tomar, donde imediatamente veio uma ambulância que o levou para o Hospital Militar.
Outro militar que o seguia, possivelmente com menos velocidade foi de encontro ao muro da Ponte.
Há pouco tempo, este é o 6º desastre que ali se dá e que não se pode atribuir só ao excesso de velocidade, mas também à apertadíssima curva que a estrada ali tem.
Esse perigo existe.
É urgente que a Junta Autónoma das Estradas faça a modificação da ponte. Não se compreende que a sua modificação tendo sido estudada e modificada com verba julgada necessária, não fosse posta em execução. Não houve concorrentes à reparação da estrada e modificação da ponte, por acharem diminuta a verba em virtude do encarecimento dos materiais. Tudo indicava que fosse reforçada, mas não.
No entanto os desastres são constantes, e providenciais não aparecem, apesar da Câmara Municipal ter reclamado por várias vezes e ainda ultimamente directamente ao Sr. Ministro das Obras Públicas.
Para as entidades que superintendem este assunto apelamos."
Jornal de Abrantes
21 de Julho de 1941
12.6.04
O Sardoal está com a Selecção Nacional...
E com o patrocinador oficial também...
Vamos ver qual será a reacção dos Sardoalenses a um resultado menos favorável da Selecção!... As bandeiras são capazes de começar a desaparecer das janelas, mas as Sagres estarão a postos nas geladeiras para "afogar" a desilusão. Se tudo correr bem as Sagres sairão das arcas para comemorar as vitórias. Assim seja.
"Queremos saber que partido tens, que bandeira segues (...)"
Camilo Castelo Branco, "A Bruxa do Monte Córdova"
Jóli, o timoneiro da noite, começa a moldar os seus hábitos nocturnos em função do avanço da sua idade. Quem circula habitualmente pela noite do Sardoal já reparou nas cada vez menos frequentes aparições de Jóli. As míticas aparições de Jóli no Shakespeare, nas Festas dos Valhascos (em que um dos festeiros comprou propositadamente uma bifana para oferecer ao cão) ou noutros convívios da noite do Sardoal começam a não passar de longínquas recordações. O cão parece começar a entrar na fase “sopas e descanso”. Raramente aparece na noite sardoalense e quando o faz limita a espojar-se no chão, longe do espírito de rambóia de outros tempos.
Como Jóli não parece estar interessado em deixar descendência (as cadelas nunca foram a sua perdição) começa a colocar-se um problema de sucessão. Quem poderá ser o próximo “Rei” da noite sardoalense? À partida não existem muitos candidatos a esse trono. De momento o único cão que frequenta o circuito da noite Sardoalense é o “Sida” (fraco gosto, o de quem escolhe um nome destes para o que quer que seja). Por enquanto, “Sida” limita-se a ficar pelo Lagarto Bar, mas com claras dificuldades em estabelecer empatia com as pessoas. “Sida” é tímido e reservado. Não procura o convívio. Mas esse não será o maior problema... Como poderá “Sida” exercer as suas funções “reais” se não procura a benção do actual “Rei”? Quem conhece o relacionamento entre “Sida” e Jóli, sabe que ele está longe da afectuosidade. Aliás, “Sida” tenta sempre manter alguma distância quando vê “Jóli”, mesmo quando este se tenta aproximar dele, talvez na tentativa de transmitir alguns conselhos. Respeito pela figura ou receio que Jóli lhe entregue definitivamente o ceptro, para gozar tranquilamente a sua merecida reforma?
Distante do fulgor e da intensidade de outros tempos, Jóli continua a ser respeitado por todos, e mesmo não se conhecendo incursões recentes aos actual Shakespeare (onde até há animados espectáculos de striptease!) isso não parece empertigar os seus mais acérrimos fãs. Afinal de contas, Jóli nunca foi muito propenso a convívios com o sexo feminino...
“Este é o atributo daquela eternidade que o Eterno Padre por meio da Real sucessão, começa a comunicar hoje ao nosso Renascente Príncipe...”
Padre António Vieira, “Sermões, XII”
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